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    Homens... ?

    2.06.09

    por David Moisés, Seção: Estudos/estatísticas 20:05:44.

    Marmanjos de 30 anos que moram na casa dos pais tendem a justificar seu arrastado processo de saída do ninho enumerando sérias questões estratégicas: necessidade de garantir primeiro um bom início de carreira, turbinar o currículo com pós-graduações em série, começar uma boa poupança, não queimar dinheiro com moradia própria etc. Mas experimente tirar a mamãe do cenário. Sem ela na casa, cuidando da comidinha do filhão, das roupas lavadas & passadas e da arrumação do quarto superequipado, todo esse cenário econômico perde magicamente a importância, e eles caem fora.

    Isso aparece em números: homens de 25 a 34 anos que vivem nas regiões metropolitanas do Brasil têm chances três vezes maiores de morar com os pais quando a mãe está na área. A cientista social Regiane de Carvalho estudou microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) para sua dissertação de mestrado sobre as chamadas famílas-cangurus (que retêm os filhos por mais tempo) e constatou que "o fato de ter ou não mãe viva foi uma variável muito importante". Tão importante que ela deu a seu trabalho o título sugestivo Casa, comida e roupa lavada: fatores associados à saída do jovem brasileiro do domicílio de origem, apresentado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).



    Como é o carinho da mamãe que realmente conta, a disponibilidade de colinho é um fator importante. Regiane reviu a bibliografia sobre o tema e concluiu que filhos únicos ou com poucos irmãos são os que se sentem realmente confortáveis para ir ficando. Ter menos irmãos significa mais recursos e espaço na casa, maior privacidade e conforto, e menor disputa pelos cuidados maternos. "Isso diminui a motivação para a saída", diz a pesquisadora. E, como as famílias brasileiras estão tendo cada vez menos filhos, a rapaziada anda bem à vontade.

    Entre 1986 e 2006, a proporção de homens de 25 a 29 anos vivendo com os pais, nas cidades brasileiras, subiu de 32,2% para 44%. Na faixa dos 30 a 34 anos, disparou de 13,7% para 22,2%. "A maioria tem alto nível de escolaridade e trabalha", conta Regiane. É bem verdade que as mulheres também passaram a ficar mais com os pais: segundo a PNAD, em 20 anos cresceu de 46,3% para 50,4% a parcela de filhas de 25 a 34 anos nas famílias urbanas do País. Mas, além de ser um aumento comparativo bem menor, cresceu o porcentual de mulheres que ocupam posição de responsáveis pelo domicílio, diferentemente do que ocorre com os filhos do sexo masculino.



    .É difícil observar os números sem lembrar de um certo acento ibérico ou italiano neste cuidado materno. De fato, as taxas brasileiras de filhotes pernudos e barbados se equiparam direitinho às taxas de jovens que moram na casa dos pais em países como Portugal, Espanha e Itália, "o que é explicado pela forte influência da família nessas culturas”, segundo a pesquisadora. Mas as mammas podem não ser as únicas a prender a ninhada hoje em dia. Com uma prole cada vez menor, "haveria uma preferência dos pais por prolongar a convivência com estes filhos, evitando a síndrome do ninho vazio”, especula Regiane.

    Além disso, é preciso estudar mais a fundo a participação do filho no domicílio, para fazer uma distinção entre aquele que está em casa aproveitando o conforto da mãe e aquele que não pode ir embora porque os pais são idosos e ele precisa morar junto para cuidar, inclusive sustentando ou ajudando economicamente. "O ideal seria fazer um estudo qualitativo entrevistando diretamente os jovens e conhecendo histórias individuais, o que é um trabalho que ainda pretendo fazer no futuro, talvez no doutorado", diz a pesquisadora.


    A PNAD também reflete, evidentemente, os problemas sócio-econômicos nas famílias de baixa renda, nas quais os filhos permanecem como dependentes dos pais por falta absoluta de perspectivas. Segundo Regiane, a parcela de filhos homens que não trabalham nem estudam também aumentou. Além disso, há famílias que abrigam filhos-pais, homens e mulheres que já tiveram filhos e precisam de apoio temporário ou permanente. Muitos parceiros e parceiras desses filhos-pais também são agregados no domicílio.

    "As famílias conviventes são, em grande medida, constituídas por filhos(as) jovens (não só os adolescentes) que se casam e/ou têm filhos, mas que continuam, pelo menos por um tempo, no mesmo domicílio que seus pais. Esta é uma particularidade dos arranjos domiciliares do Brasil. A permanência na casa dos pais coexistindo com a parentalidade/maternidade precoce, indica que o(a) jovem, embora permaneça em certo grau dependente dos pais, já adquiriu papel social e responsabilidade de adulto", comenta a cientista social.